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segunda-feira, 25 de abril de 2016

GEREMIAS O velho que temia a morte




GEREMIAS

O velho que temia a morte.



Vou lhes contar o causo de um velho que temia a morte X.
Passava mal constantemente embora não fosse hipocondríaco e nem tomasse remédios apropriados ao combate dos males de quem já quebrou o vale da boa esperança. Tinha antes, na verdade, uma saúde de ferro.

Chamava-se Geremias, com G mesmo X. Dizia esse ter sido um erro do oficial no cartório no ato de seu registro, lá pelos anos de... a sua idade ninguém sabia! Atendia pelo apelido de Jeré, não como um diminuto do próprio nome e sim de jereré, um dos instrumentos da pesca que praticara durante a vida, numa das cabeceiras sertanejas do velho rio São Francisco X.

Saíra de casa ainda cedo na primeira adolescência X. Embora não tivesse natureza e índole má, deseja a vida em completa liberdade desde que lhe chegaram cabelos na venta.

Mesmo com os muitos anos mal contados e alguns esquecidos davam ao velho a certeza de que a sua hora estava finalmente chegando e que a morte estava por espreita em derredor X.

Um mal aqui, um apuro outra noite... e era essa a sua conversa que, mesmo sendo tantos acontecimentos, pareciam história repetida.

Não tinha parentes. Vivia sozinho e solitário. Gabava-se de não precisar de nenhuma ajuda e que aqueles que se aproximavam desejavam mesmo era roubar-lhe as posses X. "Poucas é verdade" - dizia ele.

Os amigos eram poucos.
Uma vizinha viúva havia pouco tempo com quem ele buscava consolo e alguma companhia para conversar.
Outro senhor também idoso que era jogador de damas e outros jogos. Contava esse que essa tarefa, o jogo por vício, era o modo como ele sustentara a família antes de ser aposentado pelo Funrural. O jogo era a sua profissão.
Outro amigo era o barbeiro que o aturava mais pela obrigação da profissão do que pela estima e amizade.
Assim contavam-se poucos amigos X.

Voltemos ao causo.
O velho se impressionava toda vez que sabia de um infeliz cuja maleficio de uma doença grave o havia dobrado numa cama ou que esse havia sido levado à óbito prematuro.

Se alguém adoecia de moléstia grave ele sentia o que pensava ser os mesmos sintomas do caso a ele relatado.

Se chegava a seu conhecimento sobre o passamento de um para santo sepulcro sentia ele a frieza da morte aproximar-se sem piedade X.
"Dessa noite não passo".
"Meu fim chegou"!
"Está tudo acabado".
"Cumpra infeliz o propósito que lhe trouxe aqui! Mas faça com brevidade e me poupe da penosa agrura".

Os conhecidos quase não escutavam mais as suas lamentações de quase morte e das dores que padecera em noite anterior ao relato.

Todos até evitavam perguntas tipo: "como tem passado sr Geremias?

Porque via de regra a resposta era sempre de uma mesma linha e começava assim:
"Nem lhe conto... Nem lhe conto! Essa noite eu quase embarquei para a terra dos pés juntos"!

Por mais que alguns repelissem essa ideia contrariando o velho e dissessem: "o senhor ainda há de viver muito e entregar muitos aos sete palmos antes de ser levado", ele nunca concordava. O seu fim era próximo.

Por fim morreu o velho amigo jogador de damas. Ele não foi ao enterro limitando-se a pedir desculpas aos familiares.
Morreu o barbeiro e nem notícias ele foi buscar.
Morreu a vizinha viúva... e tantos outros personagens conhecidos do velho Geremias.

Pelo que pude apurar, só havia um instante em que o sempre moribundo não aceitava como certa a sua partida para o além. Bastava que algum paciente e perspicaz interlocutor lhe indagasse sobre quem recairia seu testamento. "Quem vai herdar seus bens Geré"? O que o velho não titubeava:
- Ainda viverei muito! Viverei muito antes que uma alma vivente goze dos meus favores X!

Passados alguns anos, ainda vive o velho Geremias X... Nisso você pode acreditar!



OZEAS CB RAMOS
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segunda-feira, 11 de abril de 2016

SERÁ QUE AQUELA PRAGA PRAGUEJOU



SERÁ QUE AQUELA PRAGA PRAGUEJOU?
Um caso verídico de um candidato a pular cerca!

Eu tenho um amigo, desses amigos mesmo com A maiúsculo. Que não falham em nenhuma hora que se precise dele. Seja quem for o necessitado ou qualquer que seja o favor, lá vai ele ajudar.

Esse caboclo era (à época) casado com uma criatura muito ciumenta. Pense numa cidadã danada de ciumenta?!? Era essa...

O caboclo não dava um passo fora da estrada (perto da casa deles não havia estrada de ferro, logo não precisava andar na linha) que a muié danava falação e até ameaçava. "Corto esse trem fora e jogo pras tuas galinhas!... - Dizia ela em tom premonitório de terrorista homicida. E galinha aqui é no sentido literal. Falava das penosas que o caboclo criava nos fundos da casa, no espaçoso quintal devidamente cercado.

A turma da prosa, do dominó e da cachaça vivia mangando dele. Que por viver nesse apuro entre o ciúme da mulher e as pilhérias dos amigos quase não saia para o famoso dominó na esquina. Honrosamente chamada de petrosquina.

Pouco saía e quando acontecia dele se achegar procurando dupla para jogar umas partidas de dominó era logo cercado de gozações: "Ihhh hoje a muié tá naqueles dias e deixou ele sair". Outro emendava: "Nada. Ele hoje já adiantou o serviço da casa e ela deu permissão para vir jogar". E tantas outras coisas diziam que não são publicáveis agora. Pulo essa parte do causo verdadeiro. Garanto a veracidade, vocês vão ver.

Ele, coitado, se limitava dizer: - Porr@ nenhuma! Rebanhe de corno viRados!

Nada disso tirava a atenção do jogo, pois não havia quem quisesse perder uma partida. Melhor esquecer o “vigiado” e prestar atenção na mesa e nas pedras.

Certa vez, o coitado chegou com uma cara de felicidade sem precedentes. Nem houve chance da gozação costumeira dada ao êxtase que ele exibia na face. Estranhezas à parte, ele se chegou, e confidenciou. A alegria estampada era que a mulher iria visitar a família no interior e ele estaria livre por uns dez dias. Livre do ciúme da mulher esperava ter a chance de dar uns pulos da cerca imaginária que vivia. Cerca elétrica digamos assim.

A minha curiosidade saltou em forma de pergunta:
- E como tu vai fazer para virar bode solto?
- Pera que já vai saber... Tá rebocado piripicado que essa semana eu saio com uma criatura. Vou tirar meu atraso!
Pegou o celular e mostrou uma enorme lista de contatos. O aparelho era ainda dos mais simplórios, modelo antigo e hoje ultrapassado posto não haver ainda as famosas redes sociais. Celular era para falar (ligar/receber) e mandar SMS.

Fora os nomes femininos que eram das famílias do casal e suas amizades em comum, só tinha nome de homem. Não aparecia umazinha criatura.
- Oxente! Mas aí só tem homem! Vai ligar pra quem?
- Calma! Aqui é que está o golpe. Mario na verdade é Maria, uma amiga lá do trabalho. João aqui é Joana. Sandro é Sandra uma morena... (suprimi também essas descrições pormenorizadas na conversa). Cada uma com seus atributos naturais. A lista corria quase o alfabeto.

Dadas todas as explicações de nome e das qualidades de cada futura candidata a “colaborar” com o nobre, ele se pôs a ligar. Contato a contato.

André, que na verdade era Andréia, atendeu e pareciam mesmo amigos e até próximos. Cabe dizer que as ligações eram feitas com o viva voz. Assim eu acompanhava a odisseia do aspirante a garanhão.

Alcione era Alcione mesmo! Essa não atendeu apesar da insistência e de duas ligações consecutivas.

Carlos era Carla. Essa estava doente, trocaram umas palavras e nada.

Alguns desses nomes citados estavam acompanhados de uma descrição de função. Como se verá adiante.

Candida Gerente era Candida. “O número discado não existe”.
Bruno a Bruna. Só Bruna...

Daniel Daniela. Que após um início de conversa caloroso disse que agora estava casada e se dizia fiel. Não aceitou o convite para saírem e nem deixaria isso para outra hora. Mais um despacho!

Elmo Mecânico era Elma. Atendeu toda educada e nem deixou o cidadão se espalhar. Pediu desculpas pois estava ocupada e não poderia falar naquela hora...

Flávio era Flavia. Dona Flávia! Reclamou do sumiço do amigo, e coisa e tal, e tal e coisa, mas... Mas ela voltou com o ex, estava de volta ao casamento de anos e não queria procurar “encrenca”. Despediu-se pedindo inclusive para ele não retornar a ligação...

Por esse tempo, toda aquela alegria e entusiasmo já dava lugar a um semblante de apreensão e angústia. O tiro estava saindo pela culatra! A lista era percorrida de frente para trás na busca apreensiva por aquela, aquela que nunca falhava. A conversa dele já não fazia qualquer sentido. Era a lembrança de uma saída com uma, de um barzinho com outra, uma intimidade no carro com essa, e isso e aquilo... E a lista subia e descia com os dedos apertando as pequenas teclas do famigerado celular.

- Isso! Michele, que na lista era Michel Motorista. – Parece ter lembrado dessa cujo nome já havia aparecido várias vezes no desenrolar da lista de contatos.

Uma jovem com os melhores atributos já descritos por um narrador contista novelista romancista! Número discado tocou poucas vezes e ela atendeu. Efusiva, falava e ria, e a conversa caminhava a passos largos para o golpe final em um convite para repetirem outros encontros... Com o polegar dava sinal de que aquela jovem era garantia do sucesso na empreitada de fuga matrimonial que tanto esperava. Nem mesmo a menção do nome do noivo da jovem diminuiu a intimidade dos dois.

Conversa rolava solta e ele mandou, não sem antes dar uma boa respirada que buscou mais ar, um ataque final:
- Vamos sair amanhã? A gente pega um cineminha e depois estica... Eu te pego na saída de teu trabalho...

Uma eternidade arrebatada por um silêncio quase fúnebre. Quase interrompi o silêncio da conversa pedindo que a alma desse uma resposta que encerrasse aquele cerca-cerca.
- Ah! Não vai dar...
- Mas porque não?
- Essa semana estou atrapalhada, atarefada até não poder mais. É que meu casamento é daqui a quase duas semanas, e os preparativos não me deixam com tempo... Blá blá blá...

O caboclo quase desapareceu e nem o fim da conversa eu pude acompanhar de tanto que ria.

O fim dessa narrativa foi que ele, por vários dias tentou quase a todo custo encontrar um contato que pudesse e quisesse sair e não encontrou.

Aparecia, já que estava livre e desimpedido, e só o que falava era:
- Nada. To no zero a zero e só na justiça com as próprias mãos!
Claro que eu não contei nada disso para os demais amigos, afinal era uma questão mais particular do sujeito e não caberia uma propaganda e exploração midiática do fato.

Na última vez que rimos desse acontecido ele mandou essa:
- Deve ter sido praga daquela praga!

Os dias correram. A santíssima retornou com o filho do interior... e o nobre retornou à sua vidinha de sempre.

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OZEAS CB RAMOS
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domingo, 10 de abril de 2016

FIQUEI RICO



FIQUEI RICO

Só falta receber a bolada que suponho ser uma milionária quantia! A chamada vultosa soma!


Ao menos é o que me garante uma crença popular e que agora tem em mim mais um defensor.


Descobri essa riqueza após duas noites mal dormidas por conta de um grilo (antes desgraçado)... que para acasalar vibra suas asas de modo frenético fazendo aquele famoso cricri...


Angustiado sem poder dormir com o barulho que vinha do telhado procurei na net uma fórmula mágica de repelente.


Já estava Grilo 2X0, pensando em evitar uma goleada jogando em casa planejava até destelhar... quando li sobre a sabedoria popular que afirma ser um presságio de sorte ter um grilo "cantando" em casa e que esse sinal prenuncia chegada de dinheiro ao cidadão bem aventurado, nesse caso - Eu.


Como a vida útil do infeliz gira em torno de seis meses, e sabendo que ele está na fase adulta... calculando... vai um... soma... multiplica....


Presumo que a minha sorte esteja já à porta. Na minha porta.


Pronto!


Rico...


Aqui pensando nos amigos e parentes. Como atendê-los na minha riqueza. 


Pensei:
Ninguém mais trabalha! Arranco mãos de todos...


Ou deixarei todos vivendo de renda... compro máquina de tear e dou pra cada um!


Perfeita essa ideia...


Como novo milionário tenho que pensar e agir como tal...


Que todos vocês sejam agraciados com um grilo cantante em suas vidas. E creiam muito, porque eu cri cri cri...


Boa sorte!


OZEAS CB RAMOS
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sábado, 7 de novembro de 2015

VELÓRIO DE ZÉ NINGUÉM - miniconto

Miniconto criado em um dos exercícios do Workshop de contos.
A palavra dada pelo escritor MARCELINO FREIRE foi "velório" e
deveria ter no máximo 50 letras, sem contar o título.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

CAUSOS DE MOÇOS E MOÇAS




CONTO - CAUSOS DE MOÇOS E MOÇAS


Eu repito com muita freqüência: Morrer eu não quero, mas ficar velho é uma droga! Não que esteja velho ou que sinta estar velho. Nada disso. Apenas, diria, começo a invejar os causos de moços e moças. Tentarei explicar, pois são esses causos que trazem a idéia de “ficar ou não ficar velho”.
Estava sentando na porta de casa com Zé Henrique, um amigo um pouco mais velho que veio pra capital tendo nascido no interior e na roça. Relembrávamos as coisas da infância e adolescência. Morávamos numa esquina de uma pequena ladeira em S. Não víamos que vinha nem de um nem de outro lado. A conversa corria animada naquela noite de temperatura agradável. Ora um ora outro se lembrava de um detalhe tendo os apartes concedidos automaticamente pelo outro. Prosa boa é assim. Tem fluidez, seqüência, é quando o outro mostra interesse. Na verdade para ambos essa conversa estava boa.

Um fato chamou à nossa atenção. O ir e vir dos moços. Jovens casais saindo como que indo à praça namorar. E em nosso tempo Zé? ─Foi a deixa para a conversa correr para esse lado. Ele logo começou:
Hoje é tudo fácil. Arrumar uma moça pra namorar e logo já tem sexo. Nem bem se pergunta o nome e já estão transando. Meu tempo era um horror. A gente crescia na roça. Ia ficando curioso vendo os animais na natureza e imaginando como seriam as coisas. Os amigos mais velhos iam adiantando a curiosidade contando seus feitos e isso só aumentava a vontade de conhecer uma mulher. Era zoado a todo instante.─Diziam: Isso é menino donzelo. Donzelo... Donzelo... Não saia da cabeça. Mas como deixar de ser donzelo, se arrumar uma namorada era uma dificuldade? Perguntava ele, enquanto eu apenas ria e assentia com a cabeça. Mal balbuciava alguma palavra.
Senão veja como eram as coisas...

No final de semana, tipicamente no sábado, a tarde ia caindo e a gente nos preparativos para sair à noite. Banho tomado, outro banho de desodorante (perfume era coisa de gente chique), arruma cabelo pro lado e pra outro (em meu caso por esse tempo ainda tinha vasta cabeleira), adiantava o café para depois escovar os dentes. Deixava a camisa por último já na hora de sair rumo ao paraíso. Isso ocorria por volta das dezenove horas.

Lá chegando, uma volta padrão para identificar as amizades e conhecidos. Enturmar era a palavra de ordem. Conversas tolas, fúteis, mas que serviam ao propósito de ver as “moça bunita passá”. A coisa começava numa apresentação devidamente “preparada” para a ocasião ou por conta de uma troca de olhares furtivos. Desse primeiro momento até o instante de estar a sós com a “doce donzela” era o tempo de uma eternidade. Quando fosse rápido durava uma semana e isso se ela desse ares de reciprocidade e interesse.

Passado esse interregno de uma semana, lá estávamos na mesma praça. Inicialmente com outros amigos até a hora da saída para uma conversa mais particularizada. Leia: conversa. Nada de intimidades, que se ocorrera, estava circunscrita apenas à imaginação do pretendente. Afastados da turma, propiciava a conversa solta, que dava o rumo para lá para as vinte e uma horas, roubar da linda moça uma pituquinha. Isso mesmo. Um beijo roubado, ousado, atrevido. E em muitos casos recriminado de pronto. A moça não haveria de permitir-se a tal investida. Retomando a conversa era hora de deixar a mão passar por sobre um seio da donzela. Fato consumado, tapa na mão! Simples assim. Os olhos da moça traziam um misto de surpresa e excitação. “Como pôde ser tão ousado?” Essas facilidades davam o sinal para o primeiro beijo do casal de pombos enamorados. Agora avaliem como esse beijo era a expressão realística da divindade! Não sairia da cabeça durante outros sete dias. E chegando próximo das vinte e duas horas, hora da moças “de família” (todas são) de retornarem para as suas casas, o grand finale: Você quer namorar comigo? excitação, coração disparado, pernas tremendo, dúvida atroz... E? Instante de eternidade com a espera da resposta. Ela haveria de permanecer assim PA RA LI ZA DA para dizer ao final: Posso pensar? Mais uma eternidade na vida desse desbravador de emoções. E de certo como ele misturava sentimentos nessa hora, ele esperaria. Embora a satisfação e sorrisos bobos no rosto da moça já denunciavam qual seria a sua resposta. Mas isso só daqui a uma semana. Como uma novela aguarde as cenas dos próximos capítulos.

Não havia telefones disponíveis. Era caro ter um. Nada de internet sem seus aplicativos de comunicação, redes sociais eram os amigos na escola e na praça. O negócio era mesmo aguardar a longa semana. Até que de volta a praça, buscavam-se mutuamente entre os tantos rostos conhecidos e, cumpridos os protocolos com as amizades, era hora de afastarem-se deles para tão esperada resposta. (Usarei aqui da liberdade de ser o escritor e irei direto para a resposta sem mais delongas). Sim aceito. Sorriso e espanto em ambos. No garoto era a glória. Hora em que o beijo já não era mais roubado. Beijo longo, esperado, desejado. Para o homem era aquele beijo mela-cueca. As mãos-bobas agora esperadas já faziam a parte que lhes apraz nesse evento. Aperta daqui, aperta de lá, línguas que se cruzam num frenesi constante. É esse o beijo mais demorado na vida do guerreiro. Se tivesse uma irmãzinha capeta, ao chegar a casa ouviria: Ta namorandoooo, fulano ta namorando. E seu doce segredo já estaria descortinado.

A semana do ainda donzelo agora tem o fulgor dos raios de sol. Os ventos agora o refrescam de um modo singular. Há beleza em tudo, em especial nas lembranças da última noite de namoro. Os autoflagelos (aquele famoso cinco contra um) intensificavam em número e qualidade. O namoro prossegui, os aprendizados mútuos também, até que a moça seja assediada para dar ao namorado ‘uma prova de amor”. Amam-se, mas falta algo que confirme esse sentimento e ele espera dela esse consentimento. (aqui eu pulei a fase de apresentá-lo à família, o pedido para namorar, a angústia diante do pai da moça, etc). Agora ele quer sexo. Só pensa em sexo. Já informou-se sobre como acontece uma relação. Domina todos os detalhes. Sabe tudo. Falta-lhe a prática. E como ele a ama, será ela a escolhida para levar à cabo sua iniciação.

Por obra e graça do divino, chega um dia, um belo dia, um dia “especial” em que cansada das investidas do namorado e igualmente excitada com a transa propriamente dita, ela em tom de anuncio de jornal nacional extraordinário diz: Amor, sabe aquela coisa que você me pede a doze meses? Isso mesmo! Um ano na espera e labuta, sussurrando ao ouvido da donzela o desejo de amá-la de corpo e alma!

E agora Zé Henrique? O diabo do sim abria o caminho para a felicidade! Mas quando? Onde? Como? Eram tantas as dúvidas que assombravam o moço. Não havia motéis. Nas próprias casas para achar vacância era como esperar por um prêmio de loteria acumulado. O jeito era ir ao rio, ou usar o matel (motel no mato).

Ela traria ainda novas preocupações. Como se não bastassem aquelas que ele já havia concebido. Faz com carinho, tá? E ainda outra: Promete que não vai me engravidar? E cresciam as angústias de ambos. Mas enfim o dia e a hora haviam chegado. Afastados da agonia vigiada dos pais e amigos rendiam-se aos beijos ainda mais acalorados. Verdadeiros chupões. Excitação em ambos. E a tão chegada hora. Livres das roupas, deitados, amando-se ainda com as mãos e bocas... Ainda há tempo para uma última expressão da moça que se retrai diante de seu amado: Não sei se é a hora certa. Se me ama, você espera meu momento!...

E levanta-se dali a toda deixando o galante donzelo atordoado e solitário com a sua própria volúpia. Ele terá que esperar ainda mais um tempo...


OZEAS CB RAMOS

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

DOMINÓ UMA PAIXÃO


Tenho poucas paixões. Uma delas é jogar dominó. Devia ter uns nove anos a primeira vez que joguei ao menos que eu me lembre.

Quatro senhores estavam jogando em pé usando um tonel como mesa. E eu, guri ali olhando. Um deles recebeu um convite da esposa (mulher quando convida, marido obedece) e de pronto ele a atendeu. Uma vaga e não havia outro adulto para completar a dupla. O jeito foi permitir que eu jogasse. Obvio que não dominava o jogo nem suas regras... Mas com a sorte própria de principiante "cagão" ganhei as partidas seguintes com meu parceiro rindo perplexo. Daquele momento em diante "zéu" era chamado para fazer dupla.

Começou então a paixão pelo dominó. Eu gosto de jogar, mas jogo sério, marcado. Tanto que se alguém me chama para jogar e me diz que só sabe colar pedras eu desisto. A lógica da marcação se perde e o jogo perde a graça.

Quase quarenta anos (pxqxp para que essa precisão matemática?) e ainda gosto desse jogo viciante. Recordo de partidas deliciosas quando em dupla com Joelson (parceiro de estrada) jogávamos com mestre Cabral e mestre Pequeno. Jogo duro, marcado. Noite ganhávamos, noutra a derrota doía madrugada adentro. Durante as partidas a conversa corria solta, leve, trivial, o que chamava de jogar conversa fora. Ouvir mestre Cabral dizer que à sombra do jequitibá não nasce raiz, referindo-se ao fato de que eu o marcava duro, não tem preço. É como uma vitória!

Uma qualidade desses adversários/amigos era que o jogo era limpo, sem sinais, roubalheira. Jogávamos despreocupados, pois era a sorte e o saber jogar com o parceiro que definia e determinavam as vitórias. O prazer com o jogo e a boa companhia importa mais que sair vencedor.

Bons tempos, mas agora os parceiros/adversários são outros. Outras motivações além da amizade comum compartilhada. Uma novidade agora é que temos “aqueles” que não gostam de perder de jeito nenhum. Somos: eu, Joelson, Mara (a tia de todos) a vereadora deputada de Simões Filho, Barreto (o Bê) que, aliás, é o único que tanto faz perder ou ganhar e ele não se abala. Quanto aos outros (eu estando incluído) melhor esquecer... Sai faísca! Mas aqui até a rusga é carinhosa, dura pouco. Há também os agregados que ajudam na variação das parcerias. Caique o enrolado, Mário Sérgio, Danilo, Gal, Cris doida, Nando o puxa saco da sogra (Mara), Pelé. Mara tem filhos que eventualmente jogam, mas são todos fregueses de carteirinha, e não respeitamos nem quando jogam com a mãe: batemos sem piedade (depois publico os palavrões que serei xingado por ela quando ler esse trecho). O que salva a família são dois irmãos dela. Paulo e mestre Arnaldo jogam muito. Como eles dizem, aprenderam jogar com quem inventou o dominó. Perder para um deles é uma honra e aprendizado.

O jogo com Mara tem seu encanto particular. Ela não gosta de perder e rouuuubbbaaaaaa de todo modo. Usa até o artifício de peidar gás sarin (fede e mata) para desestabilizar a dupla adversária. A veia peida! E fede mais que cachorro morto mais de dez dias...

Entre batidas, lasquinês, presos, soltos, dobrados, choradas, vitória e derrotas, os dias passam, os anos voam, a vida segue, mas essa paixão não morre em mim. Irá comigo para meus sete palmos e com sorte no inferno conseguirei perpetuar meu prazer em jogar dominó.


Se também gosta de boa conversa e dominó (nada de apenas colar pedras, vou logo avisando) você é nosso convidado.


OZEAS RAMOS





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