sábado, 19 de março de 2016

RUBIÃO ME LEMBROU RUBÃO

QUINCAS BORBA - M. de Assis

RUBIÃO ME LEMBROU RUBÃO



Dizem que ler é viajar. Fazer uma viagem para lugares nunca antes navegado!
Hoje, após iniciar a leitura do livro QUINCAS BORBA, logo eu seu primeiro parágrafo surge um dos personagens - o Rubião.
Nem uma página. Nem um capítulo. E uma viagem às reminiscências trouxe à lembrança o seguinte fato.



Chegamos ao local do acampamento onde passaríamos cinco dias. Logo as tarefas foram distribuídas por turmas. Coube a mim e a outros três a gloriosa tarefa de montar a cozinha e adiantar o primeiro almoço. Quem sabe um lanche fosse antecipado para saciar a fome daquela tropa em agitação?

Os personagens, muitos, diversificados de interesses e aparências, tinham em comum uma faixa de idade. Todos menos um: Rubão. Derivado de seu nome - Rubens.

Esse era adulto sem a aparência amadurecida. Trazia um sorriso engessado ao rosto. Esse sorriso constante denunciava que Rubão portava uma divergência entre a sua idade física e a mental. Era uma criança em um corpo adulto.

Não causava qualquer incômodo. Era pacífico, falava pouco e com dificuldade, embora fosse tranquilo entender suas falas. Bastava um pouco de interesse. Tudo acompanhado do sorriso bobo.

Na agitação da montagem do acampamento, barracas, cozinha, sanitário, área para uma grande fogueira, definição do melhor lugar para um campo de futebol, dentre outras tarefas, Rubão mantinha-se acocorado ou sentado em algum canto. Onde fosse possível.

As coisas caminhavam até porque o interesse era coletivo e compartilhado. E rapidamente os resultados apareciam. Já notava-se, em poucas horas o formato que pretendíamos alcançar.

Apesar de contar com pessoas responsáveis e igualmente experientes em acampamentos nas mais variadas condições, eu não deixava de passar olhos no agito geral. Haveriam toques e apartes necessários a despeito das tarefas que me cabiam; a mim e a minha equipe de cozinha.

Tipo: lona posta como toldo/cobertura. Mesa de paus improvisada. Mantimentos arrumados. Água sendo providenciada - para beber e cozinhar. Lenha para o cozimento sendo separada e trazida para perto. Preparação das duas primeiras refeições - um lanche e o almoço. Tudo corria sem maiores dificuldades.

Foi num olhar em derredor que percebi o Rubão acocorado com um pedaço papelão; coisa de uma parte da tampa de uma caixa. Rabiscava com um pedaço de carvão. Não demonstrava qualquer isolamento ou necessidade particular.

Após algum tempo decorrido e como essa posição e atitude concentrada dele não fora alterada, por curiosidade e preocupação aproximei-me de Rubão.

Não sem um espanto agradável, de uma surpresa única, ele estivera por um bom tempo desenhando o cenário do acampamento com uma precisão fotográfica.

Saía num quarto de papelão um quadro realístico do que estávamos, como dizer, montando.

Ele apenas sorria a tudo. Convoquei a todos para partilhar do mesmo espanto.

Não conhecíamos aquela capacidade do Rubão. Era um bom desenhista e pintor.

E ele seguia apenas sorrindo... como se tudo fosse apenas uma única coisa a ser experimentada.


OZEAS CB RAMOS

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