domingo, 31 de janeiro de 2016

MICROCEFALIA uma discussão sobre o aborto

 Microcefalia reabre discussão sobre aborto no Brasil

Microcefalia reabre discussão sobre aborto no Brasil


Link para a matéria:
http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160131_entenda_aborto_microcefalia_ss_lab?post_id=1035582819837301_1035582813170635#share-tools


Mais uma vez o aborto volta ao palco. E como em outros temas polêmicos é preciso ouvir o outro lado.


Em meu pensamento há uma divergência, imagine em uma nação...

Sou contra o aborto. Não por fazer uma divinização da vida... Ainda mais por ver que um deus (qualquer deus desses tantos que foram criados à imagem e semelhança do homem) arquétipo de bondade e sustentação da vida, que "permite" essa desgraça (dentre tantas outras) generalizarem.

Sou contrário, como sou contrário a pena de morte, porque a vida por si só cuidará de cada vivente. Isso é natural. Assim deve ser. Vida e morte é algo natural à vida.

Sou contrário ao aborto, esse aborto do arrependimento tardio de quem tendo a consciência das consequências que seguem um ato sexual, desprezam essa consciência puramente pelo prazer imediato. Trepou cidadão? Engravidou? Cuide. Crie a sua cria. Simples assim.

Agora...
Tem essas situações que a ciência permite prever e antecipar destinos. Como no caso dos fetos acéfalos, já objeto de resolução no STF. Sem a divinização é preciso tratar desse assunto com maturidade. Aqui meu pensamento entra em divergência: eu também gostaria que a mulher, nesses casos de diagnóstico em que uma doença da gravidade dessas citadas, seja ela uma parte importante a ser ouvida e que essa tenha a opinião ouvida e se for o caso respeitada.

É polêmica essa proposta, mas deve-se ter coragem em discutir.

(Só peço encarecidamente que em seu comentário de crítica, sugestão ou de alinhamento de pensamento, que você não venha me falar numa desgraça de um deus - qualquer deus!). A fé sendo sua, guarde-a como um tesouro. Isso não me interessa!

Assunto aqui é vida, morte. Coisas naturais.

Concluo meu devaneio com um comentário da net:
"As vezes, escolher a vida, nada mais é que simplesmente escolher uma forma mais dolorosa, sofrida e demorada de morrer". SABRINA.


OZEAS CB RAMOS

sábado, 30 de janeiro de 2016

A FLOR DO MARACUJÁ - CATULO DA PAIXÃO CEARENSE



A FLOR DO MARACUJÁ




CATULO DA PAIXÃO CEARENSE




Encontrando-me com um sertanejo,
Perto de um pé de maracujá,
Eu lhe perguntei:
Diga-me caro sertanejo,
Porque razão nasce branca e roxa,
A flor do maracujá?

Ah, pois então eu lhi conto,
A estória que ouvi contá,
A razão pro que nasci branca i roxa,
A frô do maracujá.
Maracujá já foi branco,
Eu posso inté lhe ajurá,
Mais branco qui caridadi,
Mais brando do que o luá.

Quando a frô brotava nele,
Lá pros cunfim do sertão,
Maracujá parecia,
Um ninho de argodão.
Mais um dia, há muito tempo,
Num meis que inté num mi alembro,
Si foi maio, si foi junho,
Si foi janeiro ou dezembro.

Nosso sinhô Jesus Cristo,
Foi condenado a morrê,
Numa cruis crucificado,
Longe daqui como o quê,
Pregaro cristo a martelo,
E ao vê tamanha crueza,
A natureza inteirinha,
Pois-se a chorá di tristeza.

Chorava us campu,
As foia, as ribeira,
Sabiá tamém chorava,
Nos gaio a laranjera,
E havia junto da cruis,
Um pé de maracujá,
Carregadinho de frô,
Aos pé de nosso sinhô.

I o sangue de Jesus Cristo,
Sangui pisado de dô,
Nus pé du maracujá,
Tingia todas as frô,
Eis aqui seu moço,
A estória que eu vi contá,
A razão proque nasce branca i roxa,
A frô do maracujá


Rolando Boldrin declamando:
https://www.youtube.com/watch?v=q4MhzBL5zho



OZEAS CB RAMOS

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

CATULO DA PAIXÃO CEARENSE



O estado do Maranhão descortina-se à minha vista e vai muito além dos belos olhos verdes que encontrei. Uma descoberta feita a cada leitura! E que boa literaturara tem essa terra, cuja beleza (literária) caminha em paralelo aos Lençóis maranhenses (que ainda hei de conhecer).

Sempre fiz criticas contundentes ao aspecto físico das ruas/estradas, e da conservação geral das cidades que conheci. A primeira impressão não foi nada boa. 
Negativa portanto.

Os recantos famosos pareciam apenas atraentes nos cartões postais e isso era de causar espécie. Como um estado, que teve nos últimos trinta anos representantes políticos ocupando cargos na esfera nacional, podia estar assim tão abandonado?


Já vislumbro uma melhora desde o ano passado. Sei também que não se corrige anos de atraso em um mandato.




Como por encanto descubro na literatura o verdadeiro Maranhão. Terra bela, viva, diferente e capaz de atrair a atenção positiva de quem dele se aproxime. É possível ser mais que turista nessas terras...

Já citei Gonçalves Dias, Coelho Neto e Maria Firmino. Agora, mais uma grata surpresa:



CATULO DA PAIXÃO CEARENSE







Obra em Destaque:








“LUAR DO SERTÃO” (1914)


(Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco)

(“Obs.: a letra de “LUAR DO SERTÃO é muito extensa e quase nunca foi gravada integralmente. Letra completa e Original, extraída do livro “Minhas Serestas” de Loris R. Pereira, páginas 61/64.”)
()

“Não há, ó gente, oh não,
Luar, como esse do sertão.”

Oh! que saudade do luar da minha terra,
Lá na serra branquejando,
Folhas secas pelo chão,
Esse luar cá da cidade, tão escuro,
Não tem aquela saudade,
Do luar lá do sertão.

“Não há, ó gente, oh não,
Luar, como esse do sertão.”

Se a lua nasce por detrás, da verde mata,
Mais parece um sol de prata,
Prateando a solidão,
E a gente pega na viola que ponteia,
E a canção é a lua cheia,
A nos nascer no coração.

“Não há, ó gente, oh não,
Luar, como esse do sertão.”

Quando vermelha, no sertão desponta a lua,
Dentro d’alma, onde flutua,
Também rubra, nasce a dor,
E a lua sobe…
E o sangue muda em claridade!
E a nossa dor muda em saudade…
Branca, assim, da mesma cor!

“Não há, ó gente, oh não,
Luar, como esse do sertão.”

Ai!… Quem me dera, que eu morresse lá na serra,
Abraçado à minha terra e dormindo de uma vez!
Ser enterrado numa grota pequenina,
Onde à tarde a surunina,
Chora sua viuvez.

“Não há, ó gente, oh não,
Luar, como esse do sertão.”

Diz uma trova,
Que o sertão todo conhece,
Que se à noite o céu floresce,
Nos encanta e nos seduz,
É porque rouba dos sertões as flores belas,
Com que faz essas estrelas,
Lá do seu jardim de luz!

“Não há, ó gente, oh não,
Luar, como esse do sertão.”

Mas como é lindo ver depois,
Por entre o mato,
Deslizar, calmo o regato,
Transparente como um véu,
No leito azul das suas águas, murmurando,
Ir, por sua vez roubando,
As estrelas lá do céu!

“Não há, ó gente, oh não,
Luar, como esse do sertão.”

A gente fria desta terra sem poesia,
Não se importa com esta lua,
Nem faz caso do luar,
Enquanto a onça, lá na verde capoeira,
Leva uma hora inteira,
Vendo a lua a meditar.

“Não há, ó gente, oh não,
Luar, como esse do sertão.”

Coisa mais bela neste mundo não existe,
Do que ouvir um galo triste,
No sertão, se faz luar,
Parece até que a alma da lua é que descanta,
Escondida na garganta,
Desse galo a soluçar!

“Não há, ó gente, oh não,
Luar, como esse do sertão.”

Se Deus me ouvisse, com amor e caridade,
Me faria esta vontade,
O ideal do coração!
Era que a morte,
A descantar, me surpreendesse, e eu morresse
Numa noite de luar, no meu sertão!

“Não há, ó gente, oh não,
Luar, como esse do sertão.”

E quando a lua surge em noites estreladas,
Nessas noites enluaradas, em divina aparição
Deus faz cantar o coração da natureza,
Para ver toda a beleza do luar do Maranhão!

“Não há, ó gente, oh não,
Luar, como esse do sertão.”

Deus lá do céu, ouvindo um dia, essa harmonia,
A do meu sertão, do meu sertão primaveril,
Disse aos arcanjos que era o hino da poesia,
E também a Ave Maria, da grandeza do Brasil!

“Não há, ó gente, oh não,
Luar, como esse do sertão.”

Pois só nas noites do sertão de lua plena,
Quando a lua é uma açucena,
É uma flor primaveril,
É que o poeta, descantado a noite inteira…”


Outras referências:


1) http://www.gutiproducoes.com.br/luar-do-sertao-1914/

2) http://mesquita.blog.br/catulo-da-paixao-cearense-versos-na-tarde-07112014

3) https://pt.wikipedia.org/wiki/Catulo_da_Paix%C3%A3o_Cearense

4) https://pt.wikipedia.org/wiki/Luar_do_Sert%C3%A3o




OZEAS CB RAMOS

LENDO - CAPITÃES DA AREIA - Jorge Amado - 1937



LENDO - CAPITÃES DA AREIA - Jorge Amado - 1937


Desejava esse livro. Há alguns anos ele esteve na estante mas nada da leitura acontecer. Outro dia, com apenas R$ 30,00 (trinta reais) no bolso, ao visitar uma grande livraria eu não resisti... Lá foram R$ 25,00, e os R$ 5,00 resolveriam a compra de uma água mineral e uma passagem do buzão...
Agora, lendo e carregando uma impressão que, guardadas alguns apartes e verossimilhanças, o livro mais parece um relato atual.

"Ontem houve mais um assalto".

O jogo oficial das desculpas esfarrapadas das "autoridades", os crimes, a luta pela vida em "liberdade" e as dores que cada um moleque do grupo carrega na alma.

A linguagem é simples, não simplória. O que faz desse baiano escritor popular sem o rebuscado das formas. Ou ainda, que encontrou a sua forma de escrever e narrar os dramas do povo da terra.

Os modernos capitães agora vivem no asfalto, envolvidos numa cracolândia de qualquer cidade desse país dominado pelo vício e comércio das drogas, pela violência e pelo descaso das "autoridades". Não mudam as dores...

Aliás, as dores da vida não mudam nunca!


Duas resenhas:









OZEAS CB RAMOS
www.rascunho1966.blogspot.com.br

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

POR QUE LITERATURA NACIONAL




"A cachorra Baleia estava para morrer".




Por que se deve ler clássicos da literatura? Digo, clássicos da literatura nacional, brasileiríssima, da terra...???
Leia o nono capítulo* do livro Vidas secas - Graciliano Ramos, capítulo sobre a "cachorra Baleia" (cachorra mesmo e com B maiúsculo)... e, se você não captar o porque ler nossa literatura como prioridade, se você não ficar impactado pela beleza da nossa escrita e narrativa, se você terminar o capítulo que é curtíssimo e não sentir um orgulho desgraçado de ser brasileiro, se você não sentir vontade compulsiva por ler todo o livro...

...


OZEAS CB RAMOS

www.rascunho1966.blogspot.com.br




*
BALEIA



A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.

Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa nas base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.

Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.

Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:

- Vão bulir com a Baleia?

Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.

Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se diferenciavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das cabras.

Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas sinhá vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-­se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia.

Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia. 

Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.

Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como sinhá Vitória tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga: 

- Capeta excomungado.

Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.

Pouco a pouco a cólera diminuiu, e sinhá Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável.

Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinhá Vitória encolheu o pescoço e tentou encostar os ombros às orelhas. Como isto era impossível, levantou um pedaço da cabeça.

Fabiano percorreu o alpendre, olhando as barúna e as porteiras, açulando um cão invisível contra animais invisíveis:

-Ecô! ecô!

Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a e esfregar as peladuras no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos de Baleia, que se pôs latir desesperadamente.

Ouvindo o tiro e os latidos, sinhá Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na caca chorando alto. Fabiano recolheu-se. 

E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí por um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.

Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.

Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha as folhas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros. Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteira, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-­se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas. Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latina: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tomavam-se quase imperceptíveis.

Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra.

Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava­se. 

Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade.

Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinha fugido.

Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.

O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.

Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera. Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança.

Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.

Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a importância em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades.

Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde sinhá Vitória guardava o cachimbo.

Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado.

Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil no barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.

Provavelmente estava no cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás invadia a cozinha.

A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do outro peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença.

Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.

Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

RAMOS, Graciliano. Vidas secas, 98ªed. Rio de Janeiro: Record. 2005. p. 85-91.


Lendo GRACILIANO RAMOS - VIDAS SECAS




Lendo

GRACILIANO RAMOS - VIDAS SECAS


É impossível passar imune pelo sertão. Alguma marca ele deixa na alma de quem o experimenta. Mesmo que essa experiência seja de passagem (numa viagem)...

Eu amo o sertão. Dessas identificações que a gente fica pensativo e achando que nasceu no lugar errado (sou do Recôncavo - Santo Antonio de Jesus-BA).

A vida do sertanejo, sua luta, resistência obstinada ante o castigo frequente da seca, estrategicamente mantida por inescrupulosos programas políticos... de "gente" que se perpetua no poder à custa do sofrimento de um povo belo de alma!


SECA
OZEAS CB RAMOS

A estiagem causticante
Não mata de sede o bode e o carneiro,
Não seca plantas e raízes,
Não deixa sem alimento a vaca e a carijó,
Nem destrói a alma do sertanejo
Quem perde com a seca
E perde a vida é a terra.
É ela que mata a sede com suas aguadas
Que sacia a fome com suas sementes e raízes
E mitiga o sofrimento do caboclo.
Todos eles: plantas, animais e gente
Vendo a terra sofrer
Morrem em solidariedade a ela.

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Recomendo verem esse vídeo de um Canal no Youtube com uma resenha do livro:









OZEAS CB RAMOS

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

MARIA FIRMINA DOS REIS



Maria Firmina dos Reis 

Confissão


Embalde, te juro, quisera fugir-te, 
Negar-te os extremos de ardente paixão: 
Embalde, quisera dizer-te: - não sinto 
Prender-me à existência profunda afeição.
Embalde! é loucura. Se penso um momento, 
Se juro ofendida meus ferros quebrar: 
Rebelde meu peito, mais ama querer-te, 
Meu peito mais ama de amor delirar.

E as longas vigílias, - e os negros fantasmas, 
Que os sonhos povoam, se intento dormir, 
Se ameigam aos encantos, que tu me despertas, 
Se posso a teu lado venturas fruir.

E as dores no peito dormentes se acalmam. 
E eu julgo teu riso credor de um favor: 
E eu sinto minh'alma de novo exaltar-se, 
Rendida aos sublimes mistérios do amor.

Não digas, é crime - que amar-te não sei, 
Que fria te nego meus doces extremos... 
Eu amo adorar-te melhor do que a vida, 
melhor que a existência que tanto queremos.

Deixara eu de amar-te, quisera um momento, 
Que a vida eu deixara também de gozar! 
Delírio, ou loucura - sou cega em querer-te, 
Sou louca... perdida, só sei te adorar.

         
[ CANTOS À BEIRA MAR, São Luís do Maranhão, 1871, pags. 79-80 ]
http://www.jornaldepoesia.jor.br/mfirmina07.html



MAIS INFORMAÇÕES SOBRE A ESCRITORA:

http://blog.jornalpequeno.com.br/dinacycorrea/2013/04/maria-firmina-dos-reis-poetisa-escritora-e-educadora-maranhense/


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VEJA TAMBÉM
OUTRA PRECIOSIDADE LITERÁRIA NACIONAL:

CAROLINA DE JESUS - Vida e obra literária.

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OZEAS CB RAMOS

domingo, 24 de janeiro de 2016

ELE - GRACILIANO, EU - RAMOS, A CACHORRA BALEIA E ALGUMAS LEMBRANÇAS




ELE - GRACILIANO, EU - RAMOS, A CACHORRA BALEIA E ALGUMAS LEMBRANÇAS



Desejava iniciar a leitura de Vidas Secas. À frente outras prioritárias leituras me impediam. Uma inconveniente necessidade urgente de aliviar a bexiga me deu a oportunidade; isso às duas e meia da manhã.

Ler definitivamente não me faz bem! Começando pelo fato de algumas coincidências históricas: ele, Graciliano, morou em Palmeira dos Índios, uma cidade alagoana que conheci por tantas andanças que fiz trabalhando mundo a fora (um mundo pequeno diga-se). Um baita reforço nas memórias deixadas de lado pelo passar dos anos e trazidas à baia. Primeiro divagar...

Marquei a segunda menção à cachorra Baleia nem bem começara a terceira página. Despropósito de nome para um animal em pleno sertão! Segundo divagar...

Baleia trouxe à lembrança alguns dos animais com quem convivi. Logo eu que torço o nariz e faço bico para bicho. Gosto mesmo de criar é o que se possa matar pra comer. Para saciar fome. Não bicho para dar trabalho, mais trabalho e mais trabalho. Ou seja: não gosto de bicho.

Um desses, o primeiro que me lembre, foi Bala. Cachorro pequenez (a raça) de focinho pequeno. Na época se dizia: raça original! Orgulho de pobre besta. Trem raivoso que vivia escorraçando a gente da própria casa. Certo dia rasguei um jornal batendo nele em um de seus muitos ataques... Não foi agressão. Foi defesa contra o infeliz que latia e avançava contra mim que já acuado e sentado na parte de cima do sofá não dispunha de alternativa. Esse teve fim velho e doente, e mesmo nesse final ainda me trouxe uma “doce confusão” com a “rainha das verdades incontestes”... Foi-se tarde!

Depois surgiu, como aparição de alma mal assombrada, outro “trem” que chegou “chegando”. Pequeno, branco e valente. Como não se conseguia por um nome e dado sua característica mais marcante, terminou na alcunha de Malandro. O troço percorria a vizinhança e era avistado passeando cada vez mais distante. Mais um ser de repugnante natureza. Praguejava contra Malandro. Dizia que ele iria morrer de morte inusitada: atropelado por um submarino! Porém Malandro seguia mais firme e mais malandro. Até que demos conta do sumiço do Malandro. Andou tanto que não voltou mais. Sumiu!

Tempos depois... Ponha mais um tempo nisso e seguindo um pedido de meu primeiro filho comprei e trouxemos para casa a cadela Radija que era da raça fila brasileiro. Tigresa enorme cuja intolerância raivosa com estranhos rivalizava com a minha (intolerância). Por essa sua fama, sempre desejei colocar à porta uma placa assim: a foto dela e o aviso – cuidado com o dono! Radija morreu velha e virgem.

E chega de lembranças seu Graciliano! Terceira página de seu livro, badalou agora três e meia da manhã e quero (preciso) voltar a dormir antes que seja assaltado pelo terceiro divagar...



OZEAS CB RAMOS
www.rascunho1966.blogspot.com.br

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

OBVIEDADE ULULANTE – MAS NEM SEMPRE...



OBVIEDADE ULULANTE – MAS NEM SEMPRE...



Calma! Calma. Não tratarei de nenhum molusco ou político...

Lendo a cada dia os principais jornais/portais da internet fico com uma sensação nada confortadora. Não digo depressiva, mas como se fosse.

Dê agora uma olhada ainda que rápida nos portais de sua preferência. No primeiro momento evite as notícias banais, como aquelas que tratam das separações dos famosos, da preparação das musas para o carnaval e como essas conquistaram aquele corpo exportação, e ainda, as novidades do novo bbb (minúsculo mesmo).

Pense enquanto lê as demais notícias de modo genérico e global e responda para si mesmo: que humanidade é essa?

Existem duas humanidades possíveis. A nossa, que segue o nosso olhar (particular) sobre o homem e, em seguida, a humanidade real. Você ainda pode ponderar que uma notícia é apenas uma parte de verdade e eu terei que concordar. Isso aqui é assim uma obviedade.

Insista nesse olhar... E vá mais adiante.

Caminhe pela política global e mantenha o foco no(s) SER(es) HUMANO(s).

Em seguida, pela economia.

Por aspectos ligados à nossa relação com o meio ambiente.

E cheguemos ao pensamento religioso. Esse que deveria (dado a seu aspecto mais abrangente e transcendente) melhorar o ser humano e elevá-lo a outra condição, outro patamar, à medida que os anos passam. 

Com todas essas observações feitas a partir do noticiário, a imanente humanidade, como algo que diferencia o ser homem dos demais animais, como que desaparece. Aquela humanidade incipiente que alimentamos a partir do próprio olhar esvai-se. Parecemos tudo, menos seres humanos.

Por um instante responda: o que é o homem? O que é ser HUMANO? Quais características seriam usadas para que você descrevesse a sua visão do que é o homem?

Retome seu pensamento e compare com o que acabou de ler nos jornais...

Assim a obviedade ululante é menos explicita.

Se, e aqui eu peço a sua atenção para esse SE...

Se a sua definição enquanto resposta (à pergunta - O que é o homem?) contiver algo de metafísico, essa sequência de SE tornar-se-á pertinente.

Se fomos criados por um(a) divindade(s), qualquer que sejam seus postulados, a impressão ante às notícias é de que o chamado ser humano, apesar desses milhares de anos, ainda não reflete essa origem divinal. Estamos mais próximos de um animal, de um monstro... E nem me falem em céu. Devo lembrá-los que até lá já houve uma rebelião!

Se a sua crença for baseada na teoria da evolução, a sensação é que estamos involuindo. E como sempre diz um grande amigo “o homem é o pior vírus”. Possuímos uma característica que nasce latente: capacidade de autodestruição e a consequente destruição em derredor.

Marx * em uma crítica a Feuerbach disse:

Filósofos se limitaram a interpretar o mundo de diversas maneiras; mas o que importa é transformá-lo". Obviamente a filosofia, a política, a economia e a religião... Mas em relação ao ser chamado humano, nenhuma dessas obviedades são suficientes para fazê-lo melhor.

A solução além do pessimismo filosófico é manter a visão mais limitada, regionalizada do homem. Mais simplória e menos depressiva. Ainda que mais empobrecida do ser...


OZEAS CB RAMOS
www.facebook.com/rascunho1966


* https://pt.wikipedia.org/wiki/Teses_sobre_Feuerbach

DESEJO UM VERSO NU

video


DESEJO UM VERSO NU


Um poema com métrica
É como uma canção
Em que a música precede a letra
Ritmada por um compasso...
Tem esquadro.

Como uma alma
Que depois de parida
Recebe um corpo.
Tem escopo.

Ou ainda:
Roupa feita de encomenda
por um alfaiate.
Ah! Não me enfade...

Quero versos livres
Sem princípios, meios
e afins.

Que diga o que você conseguir
Ouvir... Sentir... Ou viver...

Desejo um verso nu!
Sem antíteses, sem sínteses.

Que não se encerre em si!
E que de mim não tenha dó.

OZEAS CB RAMOS

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

ME ENSINA A TER ESSA ESPERANÇA?



ME ENSINA A TER ESSA ESPERANÇA?


E aquele velho cansado de dias e fatigado pelas dores que acumulavam em seu velho corpo, ia falando e eu, sem nada dizer, apenas ouvia atentamente...

- Ela hoje procurou saber sobre a minha saúde!
- Você está melhor? - Disse ela me perguntando.
- Com um sorriso de menino bobo, respondi: Vou ficar.
- E ainda me recomendou uma receita, que segundo ela, comendo banana verde cozida, ajudava na melhora!
- ...
- Aproveitei afinal to ficando velho e não besta... e disse:
- Ouvi dizer que um beijo da filha também melhora!!!
- Ela respondeu com uma risada sarcástica, própria dela.
- Eu emendei: dois beijos da filha (dengo) curam!
- Aí ela nem respondeu...

Eu acompanhava atento e ele continuou.

- Disse a ela: quando você era pequena eram os meus beijos que aliviavam a sua dor. Até pé sujo eu tive que beijar para passar a dor de uma topada. E assim joelho, canela, perna, cotovelo... Quando você chorava após um machucado corria e me pedia: - Beije papai, pra dor passar!
- E claro eu beijava no local do machucado... e você me dizia em voz de dengo (dengo de pai): - Passou pai! Passou...
- E corria pra continuar a brincar.

Nessa hora ele olhou para mim. E já não falava como quem olhava para o horizonte de suas lembranças. Elas haviam chegado até ele naquele instante. Todas juntas... e disse, completando:

- Não que tenha sido um bom pai. Sinceramente eu não fui. Errei mais que acertei. Sabe?...
- ...
- Mas tenho esperança que um daqueles beijos também curem hoje as dores que eu mesmo causei...

Abraçando-o pude apenas dizer:

- Me ensina a ter essa esperança?

Em silêncio seguimos cada um a sua vida-dor...


OZEAS CB RAMOS





VI(AGEM) EM UM OLHAR



OZEAS CB RAMOS

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

CINQUENTA TONS EM MEIO SÉCULO



CINQUENTA TONS EM MEIO SÉCULO


Ele chegou aos noventa e comentou sobre a idade na qual tomou consciência sobre a velhice: exatos quarenta e dois anos. Mas foi somente aos cinquenta que "ela" se materializou cruel - “Na quinta década havia começado a imaginar o que era a velhice quando notei os primeiros ocos da memória”.

Por “sorte” chego agora aos cinquenta sem esses “ocos”, mas com as dores. E penso que, como ele quis tirar certo “atraso” que esse (“atraso”) seja a “tal consciência” em constatação sinistra: o tempo já não parece o mesmo e, atrasos, pendências, lembranças começam a fazer companhia à medida que os anos como por encanto passam em revista à nossa frente.

Recordo-me de como contava o passar dos anos, em cada aniversário durante a infância. Trezentos e sessenta e cinco dias que duravam uma eternidade. Ficar mais velho, crescer, duraaavaa pra car@lhw. Com a adolescência um acelerador foi incrementado e esse contar do interregno de cada aniversário passou a ser mais acentuado. Porém, a gente via a maior idade como um alvo a ser alcançado e essa “angústia” parece que adiantava as horas, os dias, os meses. Até que chegava o dia de ficar mais velho. Ainda assim era um dia de alegria, pois o objetivo de ficar mais velho estava sendo conquistado...

Quando a maior idade chegou, tive a sensação de parar em frente a uma cachoeira, estando na parte de cima. Os anos corriam como a água pedra abaixo. Um acelerador atômico foi ligado sem meu aceno e aquiescência para que isso ocorresse. Foi phod@! Ano, ano, ano...  (como um pac-man) passando e atropelando a vida sem piedade. E foi nessa atomicidade que passei pelos quarenta e dois que o ancião de Memória de minhas putas tristes narrou com resignação diante das dores na coluna e ante um médico pouco envolvido com a sua constatação filosofal e dores reais.

Eu não chegarei aos noventa. Nem que haja um “milagre”. Embora dissesse que seria um “erro da natureza” se isso pudesse acontecer. Não saberia para que viver tantos anos. Isso em meu caso particular... pouco provável.

Questiono (direito meu p!) para que esses cinquenta anos (meio século)? Viveria melhor se houvesse emperrado o contador lá pelos vinte, vinte e dois anos, e o tic-tac silenciasse. Vinte e dois e após um ano os mesmos vintes e dois... e outro... outro... outro... mantendo os tais vinte e dois anos de idade. Assim, hoje, estaria completando meus novos vinte e dois anos de existência.

Divagação que você pode ficar livre para chamar de delírio! Que, entretanto é, nada mais nada menos, a angústia de uma existência que pegou o bonde errado após essa idade. Errou o caminho. Perdeu-se na história... ARS LONGA, VITA BREVIS. Talvez esse adiantado dos anos sirva apenas para sentir dores nas costas e outros males, afinal, MALIS MALA SUCCEDUNT.

Lembrei que há cinco anos, eu desejava poeticamente outros quarenta e cinco. Desejo vindo na verdade de uma percepção que precisaria da mesma quantidade de anos vividos para “corrigir” as c@gadas desses primeiros. Talvez para ser sábio precisasse mesmo chegar aos noventa...
*
Quando penso que posso melhorar, percebo que fico ainda mais intolerante. Sem paciência (coisa que nunca tive) até com a memória das minhas putas quase tristes. Embora artisticamente pintemos as coisas negativas com pinceladas que a idade permite. Intolerância vira com um pincel mágico – seletividade. E ainda tecemos desculpas: "temos mais tempo a perder"... Assim, o que era negativo transmuta-se em uma necessidade positivista. O que só reafirma a nossa essência.

Bom nisso tudo é que a vida não é nem tão cruel tampouco um conto de fadas. Ela apenas é. E passa sendo uma ou outra coisa. E tudo, absolutamente tudo chega ao fim. Antes, porém, das cores, dos sonhos, das músicas, livros, estórias, quero viver ainda uma sensação nova: andar de bicicleta. Quero aprender esse ano! E vou...

O nonagenário personagem comentou que na velhice se devam contar os eventos, o que ela chama de “medir a vida” agrupando-os de dez em dez anos. Assim farei rascunhando esse novo período, os fatos e as estórias, se por um descuido da soberana vida eu for deixado por aqui.

OZEAS CB RAMOS

LIVROS - RECOMENDO




3. LIVRO - O ÓCIO CRIATIVO

Domenico de Masi


Imagem da Net


2. LIVRO - ELOGIO DA LOUCURA

Erasmo de Roterdã
Escrito por volta de 1500 d.c

Imagem da Internet


1. LIVRO - ALEXANDRE E OUTROS HERÓIS

Graciliano Ramos


http://rascunho1966.blogspot.com.br/2015/12/livro-alexandre-e-outros-herois.html






sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

E COMO EU GOSTO DESSA MISTURA






E como eu gosto dessa mistura. Café seja lá onde/como ele foi passado, conquanto tenha sido "na hora" e um bom livro...



Companhias nessa noite quase solitária!
Vai ficar faltando para um grand finale: um dedo de boa prosa e...




OZEAS CB RAMOS
www.rascunho1966.blogspot.com.br

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

COLEÇÃO PARA GOSTAR DE LER - Crônicas, contos e poemas


Crônicas, contos e poemas


Muitos de nós aventureiros nesse universo da leitura iniciamos esse saudável hábito com a coleção PARA GOSTAR DE LER - Crônicas, contos e poemas. Uma série de livros chamados paradidáticos.



Essa coleção está bem explanada no seguinte endereço (citado com permissão/e-mail do autor Henrique Fendrich). Clique no link abaixo para saber mais...





OZEAS CB RAMOS

www.rascunho1966.blogspot.com.br

www.facebook.com/rascunho1966

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

POEMA - O PIRATA - Gonçalves Dias

O PIRATA

(Episódio)

Gonçalves Dias - Primeiros Cantos

Nas asas breves do tempo
Um ano e outro passou,
E Lia sempre formosa
Novos amores tomou.

Novo amante mão de esposo,
De mimos cheia, lh′of′rece;
E bela, apesar de ingrata,
Do que a amou Lia se esquece.

Do que a amou que longe pára,
Do que a amou, que pensa nela,
Pensando encontrar firmeza
Em Lia, que era tão bela!

Nesse palácio deserto
Já luzes se vêm luzir,
Que vem nas sedas, nos vidros
Cambiantes refletir.

Os ecos alegres soam,
Soa ruidosa harmonia,
Soam vozes de ternura,
Sons de festa e d′alegria.

E qual ave que em silêncio
A face do mar desflora,
À noite bela fragata
Chega ao porto, amaina, ancora.

Cai da popa e fere as ondas
Inquieta, esguia falua,
Que resvala sobre as águas
Na esteira que traça a lua.

Já na vácua praia toca;
Um vulto em terra saltou,
Que na longa escadaria
Presago e torvo enfiou..

Malfadado! por que aportas
A este sítio fatal!
Queres o brilho aumentar
Das bodas do teu rival?

Não, que a vingança lhe range
Nos duros dentes cerrados,
Não, que a cabeça referve
Em maus projetos danados!

Não, que os seus olhos bem dizem
O que diz seu coração;
Terríveis, como um espelho,
Que retratasse um vulcão.

Não, que os lábios descorados
Vociferam seu rival;
Não, que a mão no peito aperta
Seu pontiagudo punhal.

Não, por Deus, que tais afrontas
Não as sói deixar impunes,
Quem tem ao lado um punhal,
Quem tem no peito ciúmes!

Subiu! — e viu com seus olhos
Ela a rir-se que dançava,
Folgando, infame! nos braços
Porque assim o assassinava.

E ele avançou mais avante,
E viu... o leito fatal!
E viu... e cheio de raiva
Cravou no meio o punhal.

E avançou... e à janela
Sozinha a viu suspirar,
— Saudosa e bela encarando
A imensidade do mar.

Como se vira um espectro,
De repente ela fugiu!
Tal foge a corça nos bosques
Se leve rumor sentiu.

Que foi? — Quem sabe dizê-lo?
Foram vislumbres de dor:
Coração, que tem remorsos,
Sente contínuo terror!

Ele à janela chegou-se,
Horrível nada encontrou...
Somente, ao longe, nas sombras,
Sua fragata avistou.

Então pensou que no mundo
Nada mais de seu contava!
Nada mais que essa fragata!
Nada mais de quanto amava!

Nada mais!... — que lh′importava
De no mundo só se achar?
Inda muito lhe ficava —
Água e céus e vento e mar.

Assim pensava, mas nisto
Descortina o seu rival,
Não visto; — a mão na cintura
Cingiu raivoso o punhal!

Mas pensou... — não, seja dela,
E tenha zelos como eu? —
Larga o punhal, e um retrato
Na destra mão estendeu.

Porém sentiu que inda tinha
Mais que branda compaixão;
Miserando! inda guardava
Seu amor no coração.

Infeliz! não foi culpada;
Foi culpa do fado meu!
Nada mais de pensar nela;
Finjamos que ela morreu.

Por entre a turba que alegre
No baile — a sorrir-se estava,
Mudo, triste, e pensativo
Surdamente se afastava.

De manhã — quando o sarau
Apagava o seu rumor,
Chegava Lia a janela,
Mais formosa de palor.

Chegou-se; — e além —.— no horizonte
Uma vela inda avistou;
E co′a mão trêmula e fria
O telescópio buscou!

Um pavilhão viu na popa,
Que tinha um globo pintado;
E no mastro da mezena
Um negro vulto encostado.

Eram chorosos seus olhos,
Os olhos seus enxugou;
E o telescópio de novo
Para essa vela apontou.

Quem era o vulto tão triste
Parece reconheceu;
Mas a vela no horizonte
Para sempre se perdeu.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

iBahia - Salvador: 7 MUSEUS PARA VISITAR



Festas, bar com os amigos, pôr-do-sol na orla, praia. Em Salvador, não faltam opções para quem está de férias e quer aproveitar a cidade. Os dias de folga trazem a oportunidade para turistas e baianos conhecerem parte importante da história e da cultura da Bahia e do Brasil, através de um roteiro de visitação aos museus da cidade.


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